Nuvens pirocumulonimbus observadas na França

A França registrou pela primeira vez a presença de nuvens pirocumulonimbus, formadas por incêndios florestais intensos, observadas por radar. Essas nuvens, que surgem de ar quente, fumaça e umidade, têm o potencial de acelerar os incêndios, criando ventos fortes e espalhando brasas, e devem se tornar mais frequentes na Europa à medida que os incêndios florestais aumentam na região.

Impacto devastador dos incêndios na região da Gironde

Atualmente, a França enfrenta uma crise de incêndios florestais na região da Gironde, que o presidente Emmanuel Macron descreveu como a mais severa desde a Segunda Guerra Mundial. Desde a semana passada, as chamas consumiram mais de 420 quilômetros quadrados, ameaçando a cidade de Bordeaux, localizada a 15 quilômetros do foco do incêndio, e forçando a evacuação de cerca de 220 mil pessoas. Um dos eventos que gerou uma nuvem pirocumulonimbus ocorreu em 24 de julho, conforme relatado por autoridades regionais, e provocou novas ignições ao redor do incêndio original.

A prefeita da Gironde, Sophie Brocas, destacou a gravidade da situação, afirmando que “enfrentamos outra tempestade de fogo, o mesmo fenômeno incrível, sem precedentes, que observamos na sexta-feira, quando percebemos que estávamos entrando em uma nova dimensão”. Jean-Baptiste Filippi, da Universidade da Córsega, ressaltou que é um milagre que este incêndio, alimentado por nuvens pirocumulonimbus, não tenha causado vítimas.

Esse tipo de nuvem, às vezes chamado de “dragão de fogo das nuvens”, é normalmente associado a grandes incêndios florestais na América do Norte, na Sibéria e na Austrália. Esses fenômenos já provocaram incêndios devastadores, como os incêndios Black Saturday, que resultaram em 173 mortes na Austrália em 2009, e o incêndio que devastou a cidade canadense de Fort McMurray em 2016. Em 2023, os incêndios recordes no Canadá geraram 142 dessas tempestades.

Na Europa, houve apenas alguns casos confirmados de nuvens pirocumulonimbus, principalmente em incêndios na Espanha e em Portugal, incluindo um durante o incêndio devastador de Pedrógão Grande em 2017, que destruiu centenas de casas e causou 66 mortes. No entanto, essa realidade parece estar mudando.

A climatologista Francesca Di Giuseppe, do Centro Europeu de Previsão do Tempo de Médio Prazo, afirmou que a combinação de uma fonte de calor extrema e uma atmosfera instável é crucial para a formação dessas nuvens. Com o aumento da temperatura previsto em estudos, é provável que se observe mais desses eventos no futuro.

As nuvens pirocumulonimbus se formam quando temperaturas alcançam até 800°C, lançando uma pluma de fumaça ao céu. Se a pluma for suficientemente quente e a atmosfera estiver instável, a nuvem pode atingir altitudes de até 10.000 metros, gerando um sistema climático próprio. Embora a chuva frequentemente evapore no ar quente, esses fenômenos criam ventos que podem aumentar a propagação do fogo em até cinco vezes, segundo Filippi.

Além disso, as correntes de ar descendentes podem levar brasas a grandes distâncias, iniciando novos incêndios. A combinação de ventos, brasas e relâmpagos pode provocar incêndios a até 100 quilômetros do foco principal. A complexidade dos ventos torna o combate aos incêndios quase impossível, como descreveu Eric Brocardi, da Federação Nacional de Bombeiros da França, ao comentar sobre a natureza imprevisível do incêndio na Gironde.