O parlamento indiano foi palco de uma nova linguagem no debate político, com gírias da geração Z se tornando parte das discussões oficiais. Isso ocorreu após um movimento de protesto liderado por jovens que resultou na renúncia do ministro da Educação, Dharmendra Pradhan.

No dia 25 de julho, durante a discussão sobre um novo projeto de lei contra vazamentos de exames, expressões como "delulu" e "FOMO" foram utilizadas por deputados, refletindo a cultura digital que permeia a juventude do país.

O impacto da gíria Gen Z no parlamento

Na sessão, Shrikant Shinde, do partido Shiv Sena, criticou a oposição ao afirmar que estava "MIA" (missing in action) e dominada pelo "FOMO", enquanto Deepender Singh Hooda, do Congresso, usou a frase viral "waste-guna-huiya" para zombar do governo. Do outro lado, Bansuri Swaraj, do Bharatiya Janata Party (BJP), elogiou o primeiro-ministro Narendra Modi, dizendo que ele havia "clocked it" ao apresentar a nova lei.

Essa interação inusitada entre a gíria jovem e a política tradicional indica uma mudança no discurso, surgida de um movimento que começou online e se transformou em uma plataforma de protesto contra irregularidades em exames e outros problemas sociais, como o desemprego.

Contexto do movimento Cockroach Janta Party

O Cockroach Janta Party (CJP) começou como um coletivo satírico na internet, mas rapidamente se tornou um símbolo das frustrações da juventude indiana com as instituições e a apatia política. A mobilização foi organizada em plataformas como WhatsApp e Instagram, onde memes e vídeos se tornaram ferramentas de protesto.

O governo, ciente da influência das redes sociais, também começou a responder digitalmente, com Modi utilizando vídeos e apelos diretos aos jovens. Entretanto, a oposição criticou essas tentativas, sugerindo que era mais fácil mudar ângulos de câmera do que atender às demandas dos estudantes.

Especialistas, como o cientista político Rahul Verma, alertam que a adoção de gírias não indica uma mudança substancial na política indiana, mas sim uma estratégia comum dos políticos para se conectar com eleitores. Apesar da nova linguagem, a essência permanece a mesma: uma tentativa de dialogar com o público.

Payal Arora, antropóloga digital, acrescenta que a adoção de gírias da internet pode mostrar consciência cultural, mas não necessariamente uma transformação política real. A gíria evolui rapidamente e pode não ter um impacto duradouro.

Após o fim dos protestos, o governo parece nervoso com a continuidade da mobilização digital. Autoridades tentaram remover conteúdos relacionados aos protestos e processaram estudantes e ativistas. Os líderes do CJP alegam que o governo busca intimidar os manifestantes e exigem a retirada de processos judiciais como condição para a paz.

Críticos do movimento argumentam que a linguagem humorística e irreverente pode desvalorizar a seriedade da luta por melhorias no sistema educacional. No entanto, apoiadores defendem que o uso de ironia é uma maneira legítima de se expressar para uma geração que cresceu online.

A permanência dessa nova linguagem no parlamento é incerta, dado o ritmo acelerado das tendências da internet.