Uma mulher chega cedo à sala de espera com uma mochila de lanches, uma troca de roupa, o brinquedo que acalma e um laudo dobrado em quatro. Ela conhece o nome das recepcionistas, sabe qual cadeira fica mais longe do barulho do corredor, aprendeu a antecipar o momento em que o filho vai precisar sair da sala. Enquanto aguarda, responde à escola, remarca a fonoaudiologia que o plano de saúde negou pela terceira vez, pesquisa jurisprudência no celular e calcula se o salário cobrirá a terapia que a rede pública não oferece.
Na consulta, relata com precisão técnica o histórico do filho; depois, segue para outro atendimento, outra reunião, outro protocolo. Em nenhum desses lugares alguém lhe pergunta como ela está. Essa mulher vem sendo chamada de “ mãe atípica ”.
Expressão não coloquial. Ao nosso ver, valorativa. Surgiu nas poucas redes de apoio, em grupos de mensagens, eventuais encontros de nas associações de pais e ganhou o espaço público como forma de afirmação e emancipação: se o filho é considerado ‘atípico’ em relação a determinado padrão de desenvolvimento, também é a maternidade, que o acompanha e se desvia do roteiro esperado, com seus contratempos, exigências, lutos e próprias descobertas.
A categoria não designa apenas a mulher que tem filho com transtorno do espectro do autismo. Ela define, sobretudo, uma “ nova identidade “, forjada nos papéis ocupacionais e na trajetória de vida de mulheres, que passam a ocupar simultaneamente as funções de mãe, cuidadora, terapeuta auxiliar, gestora de saúde, pesquisadora, advogada informal e militante [1] .
Comentários (0)
Entre ou cadastre-se para comentar.