O presidente da Argentina, Javier Milei, afirmou que uma suposta campanha coordenada contra a seleção nacional durante a Copa do Mundo foi financiada pelo Partido Democrata dos Estados Unidos, além dos governos do Brasil e do México. As declarações foram feitas em uma entrevista a uma rádio local no último domingo.
Após a vitória da Espanha na Copa do Mundo, Milei sustentou que as críticas direcionadas à equipe argentina, que incluíam acusações de racismo entre torcedores e teorias da conspiração sobre favorecimento à Argentina pela FIFA, eram parte de um esforço maior para desestabilizar o país. “Foi obra de mentes progressistas que não querem que as ideias de liberdade prosperem”, declarou o presidente de direita.
Críticas e reações
Segundo Milei, o governo brasileiro, sob a liderança do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, teria sido o maior financiador dessa campanha. Analistas políticos na Argentina sugerem que o presidente pode estar utilizando essa narrativa como uma estratégia para desviar a atenção de sua popularidade em queda.
Pablo Torres, um livreiro de Buenos Aires que se opõe a Milei, expressou seu descontentamento com a situação, afirmando que as acusações de racismo vieram de “grandes potências coloniais” que ignoraram a história e a diversidade da Argentina. Durante o torneio, comportamentos racistas de alguns torcedores argentinos geraram ampla repercussão, incluindo um post do ator americano Samuel L. Jackson que alertava a comunidade negra a não torcer pela Argentina devido ao histórico racista do país.
Análise das alegações
Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional Argentina, reconheceram a presença de racismo no país, mas criticaram a redução da Argentina a um estereótipo negativo. Milei, por sua vez, atribuiu as críticas à oposição argentina, que, segundo ele, validou um movimento “woke” que o acusa de racismo.
No último sábado, Milei participou do lançamento da campanha presidencial do senador de direita Flávio Bolsonaro no Brasil, onde reiterou suas acusações contra o governo brasileiro. Ele afirmou que as mensagens mais hostis contra a Argentina vieram do Brasil, além de adicionar os Estados Unidos e o México à lista de supostos financiadores da campanha.
A antropóloga digital Mercedes Máspero analisou mais de 2 milhões de postagens nas redes sociais e identificou padrões que poderiam indicar uma orquestração, mas considerou difícil caracterizar isso como uma campanha coordenada. Natalia Aruguete, pesquisadora do Conselho Nacional de Pesquisa Científica e Técnica da Argentina, também não encontrou evidências de uma operação em larga escala, embora tenha notado uma conversa hostil e disseminada sobre a Argentina, principalmente sobre racismo.
Críticos lembraram que a ideia de uma campanha anti-Argentina foi usada durante a ditadura militar de 1976 a 1983, quando o regime alegava que as críticas a seus crimes eram parte de uma campanha orquestrada. Aruguete observou que Milei transformou uma conversa diversificada online em um conflito político que se alinha com sua narrativa de uma “guerra cultural” contra a esquerda, enquanto enfrenta desafios internos, como a inflação controlada, mas com desemprego crescente e escândalos de corrupção.
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